Idéia Fixa - Simone Paulino


ÁFRICAS

 

 Foto de Sebastião Salgado 

 

 

Entre o Oriente e o Ocidente

Onde fica?

Qual a origem da gente?

Onde fica?

 

Os versos são do Palavra Cantada, mas a emoção é minha. Emoção de ter conseguido, nas últimas semanas, enxergar verdades íntimas que se ocultavam atrás da bruma de intuições nunca antes chamadas a falar. É tão intrincada a pequena rede de acontecimentos que ora suscitam esta escrita que nem sei se o texto, este texto que agora tramo, será capaz de alinhavar.

 

Basta atravessar o mar, pra chegar...

 

Talvez o volteio dos pensamentos tenha mesmo brotado da música que ouço com freqüência, pelo querer da minha pequena Manuela, de dois anos, que pede todo dia a repetição segura dos sons do DVD que ganhou, do qual extraio a letra de “África”.

 

Toda gente da Bahia, sabe já, de onde vem a melodia do Ijêxá...

 

Mas seria pouco imaginar que é só daí que vem a sensação que tento agora aprisionar em letras. Uma outra origem talvez seja os Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da USP, e de um curso coordenado pela Professora Vima Martin, que tão bem me acolheu neste semestre, e me abriu o horizonte intelectual e afetivo.

 

Afinal lá vislumbrei a existência concreta de uma outra terra, de um outro ser e existir, de um outro falar e contar, que de mim fora ocultado pelos currículos tradicionais do ensino de literatura no ensino fundamental e médio.

 

Quem não sabe onde é o Sudão, saberá... A Nigéria, o Gabão, Ruanda...

 

Neste curso conheci a prosa de José Luandino Vieira: “Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha ...”. O autor dos livros Luanda e A Cidade e a Infância. O mesmo Luandino que esteve em São Paulo durante a Balada Literária e comoveu muita gente com o respeito e o carinho que devota ao Brasil e aos brasileiros, e do qual guardarei eternamente a dedicatória singela: “À Simone, um abraço angolano. Luandino”.

 

O sol nasce todo dia vem de lá...

 

Junto com Luandino, descobri, no mesmo curso, o escritor moçambicano, Mia Couto. O autor era para mim desconhecido do ponto de vista da sua escrita. Não tinha lido nada dele até adquirir “Terra Sonâmbula”, um livro que disse, e repito, foi uma das mais importantes descobertas literárias que fiz neste ano. “A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte”.

 

Onde cresce o baobá...

 

O mesmo Mia Couto, soube dia desses, é autor dos textos que compõem outro livro, que se tornou, dada esta teia na qual me enredei, um estranho objeto de desejo: o livro África, do fotógrafo Sebastião Salgado. Nele estão reunidas algumas das principais imagens que o fotógrafo captou em suas andanças pelo continente.

 

Da floresta de Oxalá e malê...

 

África que foi objeto de estudo e reflexão de um dos nossos maiores pensadores brasileiros, ele também, aquisição tardia para o meu universo de leitura, já que li seu Raízes do Brasil a pouco mais de duas semanas, praticamente de uma sentada só. “Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”.

 

Ainda estou aqui a esperar que se assente a seiva que essas raízes recolheram do chão da minha alma. Mas sinto, sinto, sinto, a latência de um galho novo a se formar em meu pensamento de caule ainda precário, apesar da espessura aparente da casca que o recobre. É como se no fundo desconhecido de mim, uma certeza incerta estivesse a pulsar.

 

Do deserto de Alah, do ilê...

 

Semana passada fiz uma faxina na casa da mãe. É habito meu, ao aproximar-se o fim de cada ano, revirar suas gavetas e fundos de armários. Nessa tarefa, na qual ninguém encontra sentido, tento pôr um pouco de ordem e beleza em sua pequena vida precária, organizando seus pertences em caixas coloridas. E precária, aqui, não tem o sentido da precariedade financeira que durante tantos anos nos assombrou.

 

A mãe hoje tem TV a cabo, microondas, DVD, CD player, refrigerador frost-free, máquina de lavar, e toda a parafernália que a faria constar na categoria de classe média do país. Falo da precariedade em termos de subjetividade, a subjetividade que se constrói no convívio com a arte, as letras, as músicas, a história, a filosofia. Mas a mãe não teve acesso a estes “bens incompreensíveis”.

 

Dias antes da faxina, meu filho Gabriel precisou entrevistá-la para um trabalho escolar. As perguntas tímidas dele, que eu tinha que repetir em mais alto e bom som para que os ouvidos gastos dela pudessem captar, diziam respeito ao seu passado. Como foi sua infância? Quais eram suas brincadeiras de criança? Como era sua escola? Em que lugares costumava passear? Qual a primeira vez que foi ao cinema?

 

Minha mãe nem teve infância. Pelo que conta, começou a trabalhar na roça tão logo suas perninhas tortas se firmaram. Minha mãe nem estudou. Saiu da escola no primeiro ano primário porque meu avô não via serventia nesta coisa de ler e escrever para quem tinha como rotina colher algodão de sol a sol. Minha mãe nem quase não brincava. Tomava conta dos irmãos menores e cuidava da casa quando não estava trabalhando. Minha mãe nem nunca não saía do lugar onde vivia, seu único passeio era ir à missa. Minha mãe nem nunca foi a um cinema. Assistiu apenas a uma exibição da Paixão de Cristo, em praça pública, quando tinha 23 anos. Minha mãe é neta de imigrantes portugueses, que vieram para o Brasil no porão de um navio, em algum tempo longínquo, que ela não sabe precisar.

 

No fundo de uma gaveta da minha mãe, achei um foto do meu pai. A mesma foto sobre a qual escrevi meu primeiro conto e que, talvez por causa de todo o nada que a cerca, alimenta meu imaginário de uma forma quase indizível. Fiquei muito tempo olhando aquela foto, tentando (uma vez mais?) adivinhar meu pai. Se ele não tivesse morrido tão cedo, talvez, dia desses, meu filho Gabriel tivesse feito a ele as mesmas perguntas tímidas: “Vô, como foi a sua infância?”, e eu, sentada no meio dos dois, intérprete de duas gerações que o abismo intelectual separa, tentando uni-los pelo afeto que por mim teria cada um dos dois, diria assim: “Pai, o que ele quer saber é se o senhor tinha brinquedos? que tipo de brincadeiras fazia com os meninos lá de Pernanbuco? como eram as escolas no seu tempo? essas coisas...o senhor fala e depois a gente escreve aqui de um jeito mais certo para a professora entender”. Fico imaginando como é que meu pai responderia. Se com o jeito triste que mareja os olhos da mãe quando alguém lhe concede o direito de falar de si, ou se de um jeito ríspido de quem não quer lembrar do que dói, mesmo sem saber que dói.

 

Meu pai morreu quando eu tinha cinco anos. Meu pai não teve infância em mim, nem nele. O que sei é que meu pai também nem não brincava muito quando criança porque como minha mãe e mesmo como meu irmão mais velho, não teve direito a este mais incompreensível dos bens que é o brincar. Meu pai também nem nunca foi à escola. Não sabia ler, nem escrever. Nem nunca foi ao cinema, eu acho. Meu pai nem não ouviu o Palavra Cantada, nem leu Luandino Vieira ou Mia Couto, nem viu uma foto do Sebastião Salgado, nem nunca soube o que fossem Raízes do Brasil.

 

Meu pai era um afro-descendente, tenho certeza. Tinha a pele morena escura e o cabelo encarapitado. Mas não é só isso que me faz ter certeza. Meu pai tinha uma filha preferida. A minha irmã Marli, 10 anos mais velha do que eu, que na aparência (será só na aparência?) herdou os traços dele. Pele bem morena, cabelos negros encarapitados. Já ouvi dizerem que meu pai chamava minha irmã carinhosamente de Preta. Depois que ele morreu, ninguém mais a chamou assim. Mais que isso, quando foi trabalhar numa loja de esporte famosa, trocaram o nome dela para Paula. Talvez tenham achado que Marli não tinha uma sonoridade boa para vendas, imagine se soubessem que o apelido dela era Preta!

 

Meu pai nunca pensou nessas coisas que eu penso. Meu pai nem não sabia onde ficava a África. Talvez meu pai nem soubesse em que continente vivia ou mesmo o que é um continente. Pode ser que meu pai nem não soubesse o quanto isso faz falta. Mas eu sei.

 

África fica no meio do mapa do mundo do Atlas da vida

Áfricas ficam na África que fica lá e aqui

África ficará

 



Escrito por Simone Paulino às 17h08
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INVENÇÃO E MEMÓRIA

 

O crítico João Alexandre Barbosa, homenageado pelos amigos, Candido, Arrigucci Jr. e Schnaiderman

 

A figura vigorosa-frágil, de Antonio Candido, numa ponta da mesa. À sua frente, as mãos espantosamente trêmulas-decididas, de Boris Schnaiderman, o homem que traduziu Dostoiévski direto do russo (e que inspira um personagem de uma trama que ora escrevo). Na outra extremidade, Davi Arrigucci Jr., com seus cabelos mais alvos do que poderia supor o leitor de seu Ugolino e a Perdiz.

 

Mais do que críticos literários, tradutores, ensaístas, aqueles homens ali reunidos eram como verdadeiros guardiões da memória literária do Brasil. Em comum, a defesa da literatura e a paixão pelos livros, paixão esta que compartilhavam com o homenageado, o crítico e ensaísta João Alexandre Barbosa, morto no ano passado.

 

E nós, os outros, os simples mortais, ali estávamos como crianças a ouvir falar de aventuras que gostaríamos de ter vivido. Nos espremíamos na sala pequena demais para o número de ocupantes. Olhos atentos e ouvidos abertos, sob um calor escaldante e um silêncio reverente, que por vezes era quebrado por sonoras gargalhadas.

 

As histórias que eles contavam...Bem as histórias são irreproduzíveis no que tinham de mais saboroso. O entrelaçar dos fatos na polifonia já quase íntima das vozes daquelas figuras quase míticas. Não raro, conseguíamos apenas ouvir, sem ver o rosto de cada um, adivinhando a expressão que deveriam ter a cada fala, o que tornava a experiência ainda mais singular.

 

O fio condutor das narrativas, a ponta do novelo de lã que eles compartilhavam, era a figura já lendária de João Alexandre Barbosa, sua chegada à São Paulo, o trabalho como professor na USP, o humor inconfundível a temperar as situações cotidianas do exercício da crítica literária e do ensino da literatura, a coragem para escrever sobre os novos autores no calor da hora, correndo os riscos inerentes a tal tarefa.

 

Mas vez ou outra, histórias paralelas se insinuavam naquele tempo mítico. Alguém puxava um fio solto aqui, outro acolá, e pronto: estávamos agora a ouvir sobre a famosa visita de Julio Cortázar ao Brasil. A estadia no Hotel Esplanada do Largo do Arouche, no centro da cidade, os jantares e conversas na casa dos amigos (Candido, Arrigucci, Schnaiderman, Mindlin).

 

Conduzidos pela voz de Schnaiderman, como que conseguíamos visualizar Cortázar, caminhando pelas ruas do centro velho de São Paulo, “um verdadeiro cronópio”, que veio ao Brasil para poder encontrar a mãe, já que na Argentina era procurado pela polícia. Ou ligando para o amigo de Campos do Jordão, onde fora passar alguns dias, perguntando onde poderia trocar seus francos belgas para pagar o hotel.

 

O poeta Frederico Barbosa, filho do homenageado, aproveitou a descontração do momento para passar a limpo algumas histórias contadas pelo pai. Uma delas teria se passado numa das salas da Maria Antonia, na qual Candido, Schnaiderman e outros teriam se tornado alvos de tiros disparados dos lados do Mackenzie. Na versão de João Alexandre, Candido teria se escondido sob a mesa e gritado a Boris que fizesse o mesmo, ao que ele teria respondido: “Não me abaixei para os facistas da Itália, não vou me abaixar para os facistas daqui!”.

 

Criações e invenções de João Alexandre, segundo Candido, mas que, suspeitamos, guardam no fundo um quê de verdade que a humildade dos personagens não quis revelar.

 

E foi nesta toada de invenção e memória, que, para dar à reunião um tom ainda mais mítico, eis que um pequeno alvoroço se fez à porta da sala, depois do que abriu-se caminho respeitosamente para alguém que chegava. Vimos então a figura inconfundível de Lygia Fagundes Telles. Camisa listada, pulôver azul turquesa e um lenço vermelho de seda ao pescoço, a grande dama da literatura brasileira se sentou devagarinho numa cadeira ao canto da sala, que alguém lhe cedeu.

De onde estava, eu via sua mão direita apoiada à parede, a mesma mão que em algum momento procurou o lenço ao pescoço, em busca de um pouco mais de ar, tão rarefeito na sala abarrotada. Mas à medida que se envolvia, ela também, nas histórias que ali eram contadas, era como se uma brisa leve soprasse sobre seu rosto, desanuviando a expressão e refrescando-lhe o corpo - e quem sabe a alma. "Por quanto tempo ainda?", me perguntei comovida ao reparar sua fragilidade e advinhar sua solidão íntima, ela que perdeu o único filho não faz muito tempo (tempo?).

 

Já não me lembro se foi antes ou depois, mas um dos amigos ilustres relatou-nos, inicialmente com pesar, a última visita à João Alexandre Barbosa, quando o crítico já estava debilitado, no pós-operatório. Contou-nos que olhando-o de longe, magro e fraco, ficou comovido com a transformação pela qual sua figura passara. No entanto, segundo o amigo, mais impressionante teria sido seu súbito revigoramento quando os dois enveredaram pelo tema da literatura. A literatura era vital para João Alexandre, em toda a extensão que esta expressão pudesse assumir naquela fala do amigo.

 

E foi neste clima, entre livros, histórias e pessoas tão apaixonadas pela literatura, que me foi impossível não recordar Borges, ele também um grande leitor e um grande ensaísta, e suas últimas palavras no conto O Imortal:

 

“Quando se aproxima o fim, já não restam imagens na lembrança; só restam palavras. Não é estranho que o tempo tenha confundido as que alguma vez me representaram com as que foram símbolos do destino de quem me acompanhou por tantos séculos. Eu fui Homero; em breve, serei ninguém, como Ulisses; em breve, serei todos: estarei morto”.

 

 

 

 



Escrito por Simone Paulino às 18h10
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O SONO DA ARTE

 

Aos meus novos alunos, que tanto têm me ensinado...

 

Pouso o lápis na folha. Abandono o teclado na esperança de encontrar no atrito do grafite com o papel o som que desperte as palavras adormecidas em mim. Aos poucos uma imagem me vem.

 

De um novelo abandonado sobre o colo, adivinho a jornada que terei de empreender. Onde o fio de Ariadne que me conduzirá de volta ao tear soterrado na vastidão da rotina?

 

As palavras estão todas aqui. Envoltas no silêncio que me habita, debatem-se. Quem, primeiro, romperá o véu que meu nada oculta? Qual delas, desvendando o mistério de ser, e sendo, dirá a que veio? A que vim?

 

As palavras agora são como fios desconexos que jazem em silêncio. Fiz, com a precariedade que me constitui, o inventário de mim. Se está dita a infância, que fazer desta outra existência de agora que também quer falar?

 

 



Escrito por Simone Paulino às 20h16
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PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM III

Andava eu entre dezenas de pessoas, esbarrando aqui e acolá nos corpos que vez ou outra deixavam escapar: "Essa mulher já morreu?" ou "Você já leu algum livro dela?". As vozes que se confundiam e alternavam-se com o ir e vir de crianças, jovens e velhos causaram-me um certo torpor... Mas havia também silêncio e espanto. Espanto contido. Não-pronunciável no todo. "Ah, então..." "Era assim que..." Este aqui é o ..." Espanto entre calado e interrompido diante de objetos-coisas-pertences-transcendentes. Uma carta a um filho que era mais que uma carta a um filho. Uma carteira de advogada que era mais que a carteira de uma advogada. Anotações esparsas em papéis amareladados, que eram mais que anotações esparsas em papéis amarelados...Livros antigos que eram mais que livros antigos...

Fui ver a exposição de Clarice no Museu da Língua Portuguesa. Sabia de antemão que não seria possível desfrutar como queria daquela visita. Estávamos num grupo grande, incluindo duas crianças. Daí que fizemos apenas um passeio superficial pelo universo de Clarice. Quero e vou voltar à exposição. Se possível num dia menos tumultuado. Refazer o caminho. Só não sei se sentirei de novo o que senti na primeira vez, mesmo em meio ao burburinho todo...

Uma emoção estranha na "sala das gavetas de Clarice". Um nó na garganta diluído apenas depois de umas tantas idas e vindas pelos espaços quase intransitáveis... A sensação nítida de ter chegado mais perto do coração selvagem do que me permitiram os livros...Sobretudo ali, diante daquelas gavetas-túmulos que depois de abertas traziam à luz não o futuro, mas um passado já distante... Envoltos numa aura quase sagrada, seus objetos-coisas-pertences-transcendentes pareciam me emparedar... Uma justaposição de palavras difícil de concatenar me oprimia sob a sombra de um ponto de interrogação infinito: Depois... sou... ousar...uma...eu...como...escritora...dizer... Clarice...

Como ousar dizer "Eu sou uma escritora", depois de Clarice?

 

 

 

 

 



Escrito por Simone Paulino às 14h56
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A HORA DA ESTRELA

Vi uma foto do filho de Clarice Lispector olhando, entre curioso e pesaroso, uma das pequenas gavetas da exposição "A Hora da Estrela", no Museu da Língua Portuguesa, em comemoração aos 30 anos da morte de Clarice. As gavetas - são mais de uma centena, se não me engano - guardam fragmentos de Clarice. Algumas, no entanto, jamais poderão ser abertas, do mesmo modo que jamais poderemos alcançar certos vãos deixados por Clarice em seus textos: O que se passava pela cabeça da autora antes da vírgula com a qual inicia seu livro "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres"? Nunca saberemos. Fiquei pensando no filho, para quem, antes de ser a grande estrela, Clarice era apenas mãe. Quantas vezes, ele, menino ainda, não deve ter se sentido preterido diante da máquina de escrever. O ruído compassado das teclas zombando dele, por ela - a máquina de escrever - estar ocupando seu lugar no colo da mãe.

Clarice Lispector.

 

O nome é em si um estilhaço. Sonoridade pontiaguda que penetra fundo no ouvido-alma da gente. Clarice. Clarice é perfurante. Entranha-se no reino das palavras e diz soberba: Tenho as chaves! Clarice é quase um verbo. Se eu Clarice. Se tu Clarices. Como seria o mundo se todos nós Clarícemos? Mas Clarice está em mim de um modo imperfeito. Se eu Clarice era só uma possibilidade remota que não se completou. Então trago Clarice para o presente e ela me atinge qual lâmina afiada e transforma tudo à minha volta em fragmento. Não consigo ler seus textos inteiros. Por isso, vou aos poucos. Recolho aqui e ali uma parte. Clarice, metonímia pura.

 

Perguntei a Clarice como é a vida após a morte. Clarice, escorregadia, me inquiriu: Que importa o futuro do pretérito? O instante, só o instante conta. Entenda, enquanto é presente! Esse mesmo, translúcido, que ao pensares nele já te escapa. Agarra-te a ele. Prenda-o em ti. É o que tens por hora, e é muito, creia-me. Pedi uma resposta e Clarice me devolveu perguntas. Será isso? Viver, uma infinita pergunta? Um consulta interminável a um dicionário com sucessivos verbetes remissivos? De onde? Para onde? Por quê? Por quanto tempo? Tempo? Que é o tempo? Se não me perguntam o que seja o tempo, sei. Mas se me perguntam, onde a resposta? Não há respostas, meu Deus, é isso? Deus?

Tenho febre de estar viva, e ela me consome, por quê? Será a existência um eterno delírio, por quê? A chuva lavou a cidade e não refrescou meu espírito, por quê? Tenho uma mesa farta e sinto fome, por quê? O espelho não reflete minha alma, por quê? Cada pergunta é um caco de Clarice que penetrou na pele porosa do meu pensamento. As ruas se cobrem de flores amarelas e roxas e isso me inquieta, por quê? A morte é roxa e a vida, amarela, e a cada quarteirão elas se alternam. Sim, seria uma resposta. Mas é belo o roxo alternado com o amarelo. E há um sopro que às vezes mistura tudo numa cor indefinida e vaga. Tese, antítese, síntese. É isso, a vida? Queria ir além, lá no mais-longe, no indescoberto rumo, bem perto do centro estreito onde nascem as palavras que fundam o mundo. Mas eu, Simone. Se eu Clarice...



 

 

 

 



Escrito por Simone Paulino às 08h15
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A PROSA DO MUNDO

 

Arte de Raoul Hasmann

 

Tenho um amigo que diz que os textos se formam ao sabor da cristalização de pequenos fragmentos aparentemente díspares, mas de essência semelhantes, se adensando aos poucos até ganharem uma forma que quer falar. Às vezes percebo as estalactites no momento mesmo de sua formação, ganhando corpo gota a gota nos tetos das cavernas e subterrâneos do meu pensamento. O impulso é sempre o de escrever, congelar a forma antes que ela se perca, mas frágeis, as estalactites às vezes racham como gelo, ao cair de uma gota pesada demais, e se espatifam para todos os lados, estilhaçando palavras, significados e sentidos.

 

Ando pensando muito no conceito de “Periferia”, e em torno deste pensamento, adivinho a condensação de algo que quer ser dito. O dado concreto a precipitar esta necessidade é o último número da revista de antropologia Sexta-Feira, exclusivamente dedicada ao tema, que traz uma antologia da “Literatura de Periferia”, na qual está incluído um trecho do meu livro-reportagem escrito em parceria com um morador de rua.

 

A edição de Sexta-Feira coloca em questão várias das problematizações possíveis em torno da idéia de periferia, a começar pelo questionamento da perspectiva. Afinal, periferia em relação a que?

 

Andei refletindo sobre isso e rastreando o deslocamento individual que a vida me proporcionou desde de a infância, da “periferia” para o “centro”. Nasci na periferia, entendida aqui em vários dos sentidos que esta palavra comporta: periferia geográfica: um bairro no extremo leste da cidade de São Paulo, no Brasil, ele mesmo periferia do mundo, cujo centro está (estrategicamente?) assentado na Europa. Periferia econômica, social e cultural, já que a região é habitada por uma maioria vivendo abaixo da linha de pobreza, sem acesso aos mínimos bens sociais e culturais.

 

No entanto, os estudos e uma intrincada rede de pequenos e grandes acontecimentos – alguns trágicos, outros felizes – me permitiram empreender a travessia que me levou ao centro (centro?). Geográfico: um bairro próximo à avenida Paulista; Econômico: a condição de classe média que paga a duras penas a escola particular dos filhos, o seguro do carro e o plano de saúde; Social, de quem transita sem muitas limitações por vários tipos de ambientes e classes; Cultural, ao me tornar portadora da chancela universitária que diferenciaria os letrados do nosso país.

 

Mas esta breve recapitulação não resiste a uma reflexão mais detida. Este “centro”, no qual agora me incluo ou me incluem, não é centro. Somos, mais do que nunca, uma periferia às avessas. Periferia de letrados às margens de um país de analfabetos funcionais, de classe média nas bordas de uma imensidão de “cidadãos monetários sem dinheiro”, vivendo na “periferia do capitalismo”, de aculturados pendurados nas franjas das culturas americana e européia. (CONTINUA...)

 



Escrito por Simone Paulino às 12h39
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O alento da reflexão está apenas no fato de que a breve antologia da revista Sexta-feira, sem a pretensão de abarcar um todo, ao contrário, declarando abertamente a diversidade e disparidade dos autores que ali se entrelaçam, coloca meu nome no meio de uma constelação de escritores os quais, bem poderia dizer, fazem parte da minha família literária, ainda que eu habite o extremo leste geográfico desta galáxia.

 

Alguns destes autores estão evidentemente, distantes de mim anos luz, no tempo e no talento (habitando o centro imaginário?) como Machado de Assis e João Cabral de Melo Neto. Outros gravitando em algum círculo longínquo da galáxia que nos contém, a exemplo de João Antonio e Chico Buarque. Além de nomes mais avizinhados, entre eles, Ferréz e Paulo Lins.

 

Penso que se algo de real nos une, talvez seja tão somente a linguagem. É dela que nasce o único “nós” possível nesta relação. Um “nós” ao qual acrescentei ainda ontem o até então desconhecido Maurice Meleau-Ponty:

 

“...se falamos e escrevemos, é porque a língua, como o entendimento de Deus, contém o germe de todas as significações possíveis, é porque todos os nossos pensamentos estão destinados a ser ditos por ela, é porque toda significação que aparece na experiência dos homens traz sua fórmula no próprio cerne, assim como, para as crianças de Piaget, o sol traz o nome em seu centro”.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Simone Paulino às 12h39
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INACREDITÁVEL MUNDO NOVO

Café virtual no Second Life

 

Ainda estou tentando digerir, compreender, sintetizar, duas “experiências” recentes. Por exigências profissionais, precisei me informar melhor sobre o Second Life. Para quem não sabe – eu quase nada sabia até então – trata-se de um ambiente virtual, mistura de video-game e site de relacionamento em 3 D, que já reúne milhões de usuários no mundo todo, e no qual é possível (realizar?) todo e qualquer desejo, desde de ter um corpinho de top model ou comprar uma ilha, até tornar-se milionário fazendo só o que você gosta. Um mundo réplica da realidade, com moeda própria, o Linden Dollar, e sem limites entre o que se deseja e o que se pode conquistar ao clique de um botão. Um universo irreal regido pelo princípio do prazer.

 

Esta segunda vida, de acordo com matérias que pipocam na rede, está atraindo tantos adeptos que grandes empresas já estão bolando formas de comercializar seus produtos no Second Life. Funcionaria mais ou menos assim: enquanto você passeia numa das ruas virtuais, um mega outdoor anuncia a mais nova geração de celular, por meio do qual você pode, inclusive, receber notícias de baladas e shows que estão acontecendo do outro lado da sua vida real. Fisgado pela propaganda, você compraria seu celular no Second Life, e o receberia na sua First Life, entre outras coisas, para ter uma linha direta com o que se passa na sua segunda vida, enquanto você está na sua primeira vida. Difícil compreender? Para mim, confesso que foi espantoso inicialmente.

 

Na ânsia de entender melhor, tentei entrar no universo paralelo. Criei – como requer o sistema – um segundo nome e sobrenome, pelo qual serei identificada em minha segunda vida. Meu personagem, ou para usar a terminologia do Second Life, meu avatar (do Aurélio, reencarnação de um deus), ganhou um corpo virtual, montado por mim com partes escolhidas ao sabor do estado de espírito do momento – e que poderão ser mudadas na hora em que eu bem entender. Mas, para o bem ou para o mal, na hora de fazer o download, recebi a mensagem de que o meu computador – comprado há pouco tempo como top de linha – não suporta o programa. Confesso que fui tomada por um misto de frustração e alívio. Aquela sensação difusa que se abate sobre nós quando estamos a um passo de realizar um grande desejo, mas vacilamos, como que incertos se queremos de verdade passar do idealizado para o real. (CONTINUA...)

 



Escrito por Simone Paulino às 10h19
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O fato é que esta possibilidade do Second Life ficou a rondar meu pensamento, se adensando tanto, a ponto de se tornar quase uma angústia. Até que navegando pela Internet me deparei com uma notícia do jornal El País, que mudou meu foco de atenção. A notícia é da semana passada, mas o incômodo, o desconforto, é de hoje ainda.

 

A manchete era: “Um lar em pleno cemitério”. O Subtítulo: “Um milhão de pessoas vivem entre os mortos no Egito”. A matéria explicava: Por falta de moradia, as pessoas no Egito passaram a ocupar, ou dividir espaço, com os mortos nos cemitérios, único abrigo para quem não tem um teto seu.

 

Para “viverem” no conjunto de cemitérios conhecido como Cidade dos Mortos, localizado no Cairo, os egípcios pagam algumas libras, como um aluguel, pelas tumbas e mausoléus que transformam em quartos, salas, banheiros. Diz-se até que a dinâmica do lugar já fez surgir, (a exemplo do Second Life?), um mercado paralelo. Pequenos comerciantes que vendem seus produtos para os moradores dos cemitérios, nos corredores de túmulos transformados em pequenas vielas.

 

Ao associar o Second Life com a Cidade dos Mortos, fiquei pensando no que disse Freud há tantos anos, sobre a potencialidade de o estranho se tornar subitamente familiar, e o familiar, por sua vez, tomar a forma de algo absolutamente sinistro.

 

Diante da idéia de milhões de pessoas vivas acordando, dormindo, passeando, chorando e rindo entre mortos, a existência de um mundo virtual com possibilidades semelhantes torna-se uma ingênua brincadeira de criança.

 

Sempre tive um certo fascínio por tudo o que se refere à mais antiga indagação da humanidade, a velha e densa neblina que recobre as formulações acerca da imortalidade da alma e da possibilidade de uma vida após a morte. Hoje, no entanto, o que me inquieta é a mortalidade das almas de quem ainda está vivo. Vivo? Almas que perambulam num limiar intangível entre a vida e a morte.

 

Como dizia o mestre Guimarães Rosa, "Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos... Do que digo, descubro, deduzo. Será, se? Será este nosso desengonço e mundo o plano - intersecção de planos - onde se completam de fazer as almas?... Se sim, a "vida" consiste em experiência extrema e séria; sua técnica - ou pelo menos parte - exigindo o consciente alijamento, o despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e soterra?... E o julgamento-problema, podendo sobrevir com a simples pergunta: - Você chegou a existir?"

 

 

 

 

 



Escrito por Simone Paulino às 10h17
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 Magritte

 

 

“Durante muito tempo não conseguimos deixar de pensar em certas coisas, por mais simples que pareçam, elas como que nos perseguem, e até nos parece então que temos culpa dessas coisas”.

 

Fiodor Dostoiévski

 

 

 Daqui do quarto, eu posso ouvir. Os pratos. Já começaram a lavar os pratos. Escutem! É o barulho da louça se acumulando sobre a bancada. Têm pressa. Não conseguem ouvir? Eu ouço. Minha audição se sofisticou depois que perdi a fala. Perdi, não. Dizem que perdi. Falo o tempo todo. Os outros é que não me ouvem. Prestem atenção, prestem! Não é mais louça agora. São panelas. Estão quase acabando porque sempre lavam as panelas depois dos pratos. Isto significa que vai começar logo. Não deve demorar nem cinco minutos. Elas sempre aceleram o trabalho exatamente neste ponto. Eu sei. Acompanho todo dia esta rotina. Começam com uma conversinha fiada. Umas risadinhas. Vocês sabem, aquelas risadinhas sem graça, sem motivo. Até que alguém diz: “Vamos, vamos, que eu não quero perder a novela”. Imagine hoje que é o último capítulo! Ou pelo menos o que eles imaginam ser o último capítulo. Pensam que sou louca porque vivo aqui nesse sanatório. Mas loucos são eles. Acreditam que aquilo é ficção. Tomam verdade por mentira. Que tolos! Não conseguem distinguir real do imaginário. Eu consigo. Aprendi. Nos livros e na vida. É tudo diluso, mas eu sei. Por isso preciso contar. Vai começar. Não, a novela ainda não. O medo. Vai começar a chegar agora, quer ver? Tenho medo toda vez que tenho que decidir alguma coisa. É que uma pequena decisão pode mudar tudo. Vocês não sabem dessa lógica oculta. Mas eu sei. Todo dia tenho que decidir. Assisto. Não assisto. Nunca sei o que é pior. Quando não vejo as imagens, fico ouvindo os diálogos. E a imaginação, vocês sabem, é mais detalhista. Eu li, faz pouco, que o demônio mora nos detalhes. (CONTINUA...)



Escrito por Simone Paulino às 17h21
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Acho que hoje vou ficar por aqui. Ouvir já será demais para mim. Ou será melhor me juntar aos outros na sala de TV? O medo está vindo de novo, olha, aqui, pertinho. Sinto suas patas geladas escalando minha espinha. Começa assim, sempre. Um suor excessivo nas mãos. Depois uma pressão no peito e na garganta, e pronto. O coração começa sua cavalgada insana. Mas eu sei que é só ansiedade. Dá para controlar. Basta respirar com calma e pensar em algo bom. Uma casa boa. Inspira. Minha mãe servindo o tutu pelando de quente. Expira. A fumaça aquecendo o rosto da gente. Inspira. O pai...Espera, espera! A vinheta. Vai começar. A novela. Agora é a novela que vai começar. Escutem! Estão se arrumando nas cadeiras, por isso o barulho. Calma, ainda tem uns três segundos do patrocinador: “Sabonete Lux Luxo, o sabonete das estrelas”. Acabou a propaganda. Mas essa cena aí é repetida. Já passou ontem. Como? Vocês não pegaram a novela do começo? É mesmo. Espera, espera. Então vou ter que contar tudo desde o começo. Se eu me lembro? Claro que me lembro! E o capítulo de hoje? Não tem problema, eu sei tudo o que vai acontecer hoje também. Aliás, o que já aconteceu. Começaram a contar a partir da adolescência da mocinha. Voltam no tempo. Depois avançam e chegam ao futuro. Futuro não, presente. Mas não o presente de hoje, o de ontem. Mas se é de ontem não é passado? Depende. É confuso, eu sei. Mas o que é a vida senão esse emaranhado de fios cheios de nós. Cheios de eus. A história começou assim...Ah, só um instante, um minutinho de atenção, por favor! Quando se conta algo, aumenta-se, é natural. Tente contar um sonho a alguém e comprova-se o que digo. Ao terminar de contá-lo, o sonho já não é o mesmo, mas outro, sonhado durante a vigília do contar. Eu, agora que conto, de certo agiganto também, mas não invento. É que escrevi tudo na minha memória. Mas os mecanismos da escrita são semelhantes aos do sonho. Conteúdo latente. Conteúdo Manifesto. Lembranças encobridoras. Como eu sei disso? Eu li, é claro! Você vai saber onde, mas só adiante. O importante agora é que fique claro: “Hablo de cosas que existen. Dios me libre de inventar cosas cuando estoy cantando”.

Fragmento de uma história sem nome, em gestação.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Simone Paulino às 17h20
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AS CIDADES E O DESEJO

 

 

Chagal

 

 

Hoje acordei com palavras cheias de mistério e promessa, cantaroladas ao raiar de uma manhã iluminada e triste:

 

Sonho: chama que carregarei para a terra onde nunca é amanhã e o agora não tem fim. Nesta terra não me importo com o tempo e o espaço, pois se bem me recordo, na minha tão sonhada cidade, as possibilidades também são infinitas... Agora as recordações... estas foram as cidades que eu conquistei... Minha memória das cidades invisíveis...”

 

Diz-se que todo sonho é a realização de um desejo. Só que esta realização aparece no sonho em imagens, quase sempre cifradas. Imagens que formam uma linguagem que, de-cifrada, conta uma história. Suspeito que os diálogos que travo em meus sonhos com seres imaginários guardam no fundo deles um desejo. Quisera ter alguém capaz de adivinhá-lo quando lhe contasse meus sonhos no café da manhã. Alcançar a benção suprema de ser entendida, sem ter que dizer tudo!

 

 “A três dias de distância, caminhando em direção ao sul, encontra-se Anastácia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por pipas. Eu deveria enumerar as mercadorias que aqui se compram a preços vantajosos: ágata ônix crisópaso e outras variedade de calcedônia; deveria louvar a carne do faisão dourado que aqui se cozinha na lenha seca de cerejeira e se salpica com muito orégano; falar das mulheres que vi tomar banho no tanque de um jardim e que às vezes convidam - diz-se - o viajante a despir-se com elas e persegui-las dentro da água. Mas com essas notícias não falaria da verdadeira essência da cidade: porque enquanto a descrição de Anastácia desperta uma série de desejos que deverão ser reprimidos, quem se encontra numa manhã no centro de Anastácia será circundado por desejos que despertam simultaneamente. A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte, e, uma vez aqui, se goza tudo o que não se goza em outros lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer. Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que ás vezes se diz ser malígno e outras vezes benigno: se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágata ônix crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anástácia quando não passa de seu escravo”.

 

 



Escrito por Simone Paulino às 16h44
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AS CIDADES E A MEMÓRIA

Chagal

 

Ontem sonhei com palavras cheias de mistério e promessa, murmuradas na minha janela ao cair da noite:

 

O sussurro de uma chuva que se aproxima sopra sobre a cidade. O mensageiro dos ventos pendurado na sacada emite seu som de suave contentamento. Penso em um sonho e o sonho me vem por inteiro... Quando foi mesmo que o sonhei...sonhava...sonhara?

 

"O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente, chega a Isidora, cidade onde os palácios têm escadas incrustradas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos...Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murmúrio dos velhos que vêem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações"

 



Escrito por Simone Paulino às 11h56
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DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 
 
Sempre fui contra a panfletagem feminista, apesar de hoje em dia, como mulher, mãe, esposa, profissional, irmã, etc, etc, me sentir impelida a reclamar (clamar de novo) por todas as questões nas quais não me sinto plenamente atendida.
 
Todas nós queremos mais amor, atenção, gratidão, compreensão, afago, entendimento, cumplicidade, espaço, tempo, sono, prazer, mimo. Mas penso também que isso é uma condição humana no sentido amplo, e não estritamente feminina.
 
Na maioria das vezes cobramos isto dos outros sem nos dar conta de que quase sempre nós mesmas não nos damos o amor, a atenção, a gratidão, a compreensão, o afago, o entendimento, a cumplicidade, o prazer, o mimo de que tanto necessitamos.
 
Por isso, minha singela homenagem será feita com umas lindas palavras colhidas numa leitura recente, momento de puro prazer e encontro comigo mesma, que me dei de presente, mesmo em meio ao turbilhão de compromissos a cumprir.
 
"Na Lua e em seus ciclos, nas águas do mar e em suas marés, na noite e em seus sonhos, na mata e em sua vitalidade. Há em tudo isso um pouco de mulher. Para a mitologia grega, a deusa da Lua e da caça é Artemis, capaz de cuidar de si mesma. Quando essa energia e clarão são evocados, a gente sente sua silenciosa presença, os detalhes são vagos, há mistério no ar, mas também a confiança de que a natureza cuida de nos manter íntegros".
 
 
 


Escrito por Simone Paulino às 16h55
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QUE SOU A MULHER POR TRÁS DAS PALAVRAS

Meus dedos estão gastos, como gastos ficavam os dedos de minha mãe de tanto enrolar sempre seus cigarros de palha, tragados ao vento parado de sua vida mesma. Dedos amarelados e unhas grossas até hoje revelam seu vício antigo. Que será de meus dedos quando a vida, esta de agora, tiver passado como passaram os anos corridos lentos da vida de minha mãe?

Os cães latem ao longe, como latiam os cães da minha infância, som abafado pelo coração lamentoso e rouco da mãe. O medo dos cães se foi, mas a angústia de estar em desamparo no mundo é a mesma-igual. Haverá cães a latir na cidade quando outros tantos anos tiverem devorado o que hoje sou?

Se me perguntarem: "Onde estivestes que não a vemos, desde..." Direi que sou a mulher por trás das palavras. Estive estou estarei no mesmo lugar onde todas as mulheres sempre estarão, pajeando filhos, semeando amores e lavando o chão. O fato de umas o fazerem literalmente e outras literariamente é simples acaso. Ocasião.

Li em um pé de página fugido da memória as palavras de uma mulher sem nome. "As crianças eram pequenas, os dias corriam mansos...Éramos felizes e sabíamos...".

 



Escrito por Simone Paulino às 18h17
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